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Depois de um início de ano com pouco dinamismo, o varejo registrou seu melhor início de segundo semestre dos últimos seis anos, apoiado numa combinação de maior concessão de crédito a pessoas físicas, melhora do mercado de trabalho e inflação comportada. As vendas pelo conceito restrito cresceram 1% de junho para julho, o melhor resultado para o mês desde 2013.No conceito ampliado (que inclui veículos e material de construção), a alta foi de 0,7%.

O forte resultado superou a mediana das projeções de analistas, que apontava para alta de 0,1% pelo conceito restrito. A leitura furou, inclusive, o teto das expectativas, de alta de 0,8%. Surpreendidos pelo desempenho, analistas consideraram os números como positivos, mas pregaram cautela sobre a sustentabilidade desse ritmo de consumo.

Os dados apontam que a demanda das famílias, apesar do desemprego, pode estar mais forte, mas é preciso esperar mais dados, afirma Luana Miranda, pesquisadora da área de Economia Aplicada do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas (Ibre-FGV). “É um argumento no sentido de ‘será mesmo que temos uma fraqueza de demanda?'”, diz.

Além da surpresa com o dado refente a julho, os desempenhos dos meses de maio e junho revelaram-se mais positivos após serem revisados pelo IBGE. Pela série com ajuste sazonal, sempre frente ao mês imediatamente anterior, o varejo cresceu 0,1% em maio (dado revisado de estabilidade) e subiu 0,5% em junho (revisado de 0,1%).

Responsável pela metade do faturamento do varejo, o segmento de hiper, supermercados e produtos alimentícios liderou as vendas do setor, com crescimento de 1,3%. O segmento respondeu também em grande parte pela divergência das projeções para o resultado efetivo, que ficou na contramão do indicador da Associação Brasileira de Supermercados (Abras).

Segundo Isabella Nunes, gerente da pesquisa do IBGE, preços mais baixos de alimentos contribuíram para o resultado de supermercados, além da recuperação do mercado de trabalho, o que contribui para o avanço do consumo de bens básicos. “São fatores que explicam o ganho de ritmo, assim como o crédito”, disse.

Para Helcio Takeda, da consultoria Pezco, a inflação comportada entre maio e julho contribuiu para o consumo de bens básicos em geral, inclusive de produtos farmacêuticos, que cresceram 0,7% de junho para julho. “É uma mudança bem importante. Essa queda da inflação tem efeito significativo sobre a renda”, afirma o economista.

O comportamento do crédito desempenhou papel relevante para o avanço das vendas do varejo em julho. Dados do Banco Central divulgados no fim de agosto mostraram que as concessões de crédito livre subiram 5,1% de junho para julho e passaram acumular alta de 12,9% em 12 meses.

“A aceleração do crédito às pessoas físicas parece estar por trás do crescimento das vendas do comércio varejista em julho”, afirma Flávio Calife, economista da Boa Vista SCPC. Ele pondera que é cedo para otimismo por causa do fraco crescimento da renda e da alta taxa de desemprego.

Economistas do Itaú Unibanco destacaram que os produtos mais sensíveis ao crédito cresceram, inclusive, a taxas mais elevadas que aqueles sensíveis ao comportamento da renda. É o caso das vendas de móveis e eletrodomésticos, que avançaram 1,6% de junho para julho. Esse segmento, contudo, registra crescimento zero no acumulado do ano. As vendas de veículos e peças, por sua vez, registraram queda de 0,9% na passagem de junho para julho. O resultado negativo era esperado por analistas.

“As vendas sensíveis à renda, que estavam surpreendentemente fracas em meses recentes, se recuperaram em julho. O ritmo de crescimento anual é agora mais consistente com a massa salarial real”, avaliou o banco, em relatório. “Continuamos a ver um cenário de consumo com desempenho melhor que o investimento.”

Para Rafael Leão, economista-chefe da consultoria Parallaxis, a sustentabilidade do varejo exige cautela diante da baixa qualidade dos empregos gerados no país, o custo ainda elevado do crédito e a recuperação errática da atividade econômica.

“O aumento do emprego se dá pela informalidade. O rendimento médio real do trabalhador caiu. Então, a alavancagem por crédito pode não se sustentar. Podemos estar observando um ciclo de retomada do consumo no varejo? Talvez, sim. Mas precisamos esperar mais dados para confirmar isso, porque o movimento pode não ser sustentável”, disse ele.

Takeda, da Pezco, acrescenta que o forte ritmo de crescimento das vendas de artigos mais caros, como móveis e eletrodomésticos, deve ser pontual. A liberação de recursos do FGTS pode até ajudar o varejo, mas apenas no curto prazo. “Pensando em um horizonte mais longo, um crescimento mais robusto só se consolidaria com uma retomada do emprego de melhor qualidade (formal)”, disse.

A recuperação do varejo tem se mostrado errática desde o início do ano passado e pode não ser diferente agora. Indicadores coincidentes para agosto têm levado analistas a projetar uma perda de fôlego das vendas do varejo em agosto.

A MCM Consultores e a LCA Consultores preveem estabilidade no varejo restrito frente a junho. O Itaú Unibanco estima baixa de 0,2% no mês.

Fonte: Valor

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